quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Conto I: O fim deste capítulo. parte 1

O FIM DESTE CAPÍTULO

Era  uma tarde chuvosa de outono quando nos conhecemos. A chuva escorria tão tranquilamente pelo janela da minha sala. Estava sem muita inspiração no dia, e minha máquina de escrever já estava enchendo de poeira. Papéis espalhados por toda a mesa. Sinais de minha inquietação. Não dormira a noite anterior. Precisava entregar aquele livro em menos de duas semanas, e não conseguia encontrar um bom desfecho para a história. Nada, nada do que eu pensasse parecia realmente adequado para fechar a edição.
Ficava cada vez mais frustrado. A bagunça em meu apartamento crescia à medida que minha criatividade ficava mais diminuta. O clima lá fora estava tão convidativo. E eu, aqui, preso por preocupações.
Mas o que poderia fazer? Vivia sozinho. Minha única companhia era meu cachorro, e honestamente,duvido que pudesse haver alguém que me suportasse além dele. Não que eu seja antipático. Mas tenho um jeito de ser tão despreocupado, tão sonhador, que poucas pessoas conseguiriam conviver comigo por muito tempo.
Minha evidente desorganização é prova disso. Exceto as vezes em que acordo bem disposto e dou um trato, aqui fica sempre assim, bagunçado. Não é como se eu me importasse. Vivo bem assim, se querem saber. Mas sei lá, falta uma presença sabe? De vez em quando, recebo a visita de alguns amigos, e é sempre tão divertido. Contudo, ainda assim, há essa ausência. Algo feminino, sabe?
Namoradas? Ora, tive apenas uma. Como devem imaginar, não demos muito certo. Ela era muito autoritária. E sinceramente, depois, de um tempo, aquilo me deixara exausto. Estava cansado de tantas condenações injustas e exageradas, e terminamos pondo um fim ao nosso relacionamento. Melhor assim. Sinto necessidade de um carinho, claro... Mas prefiro essa solidão melancólica àquela megera.
Bem, como dizia, estava entediado. Fui repor a ração de Lemuel, e percebi que esta estava acabando. Não só a dele, aliás. As panelas vazias, e aquela louça pedia urgentemente a minha ação. Respirei fundo, e fui para o meu quarto. Ainda haviam alguns trocados na carteira. Visto uma camisa polo verde-capim e visto um colete marrom por cima. Finalmente pego meu casaco verde-musgo e me preparo para sair. Essa obsessão pelo verde me persegue. Não sei, esta cor me acalma, traz paz de espírito, algo que eu prezo muito.
Bem, afago Lemuel um pouco, e me olho no espelho da sala. Minhas costeletas estão ficando espessas... Penteio meu cabelo, e finalmente saio de casa. A chuva não cessa. Atravesso a rua em meio às poças d'água formadas pelo asfalto irregular. Caminho até o café-mercearia que frequento. Após comprar alguns pacotes de espaguete, molho de atum, e claro, o imprescindível  café; peço um capucino a garçonete. Dentre todas as maravilhas que podem ser alcançadas com café, leite ou chocolate, nada se equipara a este néctar, digno de um banquete no Olimpo.
Com a alma aquecida e a mente desperta, preparo meu guarda-chuva para ser aberto, e acidentalmente, acerto uma moça que caminhava pelo calçada. Imediatamente, peço-lhe desculpas e tento acudi-la. Não está ferida. Mas meu golpe a derrubara em uma poça de lama. Cortesmente, e muito preocupado, me ofereço para conduzi-la até meu apartamento, onde, apesar do incidente, ela poderia limpar-se. Ela recusa, mas como eu muito insistira, e sou levado a crer, motivada por um certo interesse, ela finalmente aceita. 

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