segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Conto I: O fim deste capítulo. parte 3

Terceira parte do conto. Composta ao som de Dias Iguais, da Luiza Possi.
Continuamos com a melancólica falta de inspiração de nosso intrépido escritor. O que ele fará para sanar isso? E a garota misteriosa, que destino ela teve? Estas e outras emoções, você confere logo abaixo.
Ora, ora... Ainda não leu as partes anteriores? Não perca tempo!

O FIM DESTE CAPÍTULO

Como, novamente, a inspiração me abandonara, fui tomar um banho, e após envolver-me no frescor da água quente, preparei-me para dormir. Cobri-me aconchegante, e fechando os olhos, aguardei que Morfeu os enchesse de areia, para conduzir-me a sua terra de sonhos. Não muito tarde, estava eu em misteriosa sina, escuro beco. Neblina forte me envolvia, e um medo ainda mais sobressalente. Quando vi uma moça, cujo rosto, escuridão ocultava, e tentando me aproximar, mais dela distava... Continuei nesta busca tenebrosa, até finalmente alcança-la, acordando em seguida, assustado, sem lembrar de sua face.
Era o despertador insolente, que apitava enfurecido. Já era de manhã. Tudo a minha frente era turvo, embaçado. Mas não me impedia de verificar que Lemuel dormira em meus pés, encolhido.
Pelo estado molhado de minha escrivaninha, que ficava de frente a janela,( A qual, eu, imprudentemente esquecera aberta) pude logo verificar que havia chovido naquela noite. Alguns papéis estavam imprestáveis, com a tinta escorrendo em traços tão horríveis, que parecia uma daquelas pinturas de Edvard Munch. Sorte minha, não passarem de alguns anúncios inúteis que eu havia recolhido destes panfleteiros ambulantes. Minha obra, que ainda jazia incompleta, estava protetivamente guardada em uma pasta transparente, dentro do meu criado mudo. E a máquina de escrever, por fim, estava bem protegida debaixo de seu tampo.
Sei o que você, incauto leitor, está se perguntado. O que eu, escritor, vivente nestes tempos de modernidade, faço com uma máquina de escrever, em uma época em que abundam computadores? Ora, não me julgue ultrapassado ou ignorante. Tenho, porventura, uma dessas maravilhosas máquinas, fruto do engenho humano. Mas, a velha datilografia, incita em meu espírito uma sabor tão sublime, que não consigo escrever fora dela. Quando concluo uma obra, simplesmente escaneio, e usando de um programa desenvolvido por um grande amigo meu, converto tinta em pixel, papel em imagem.
Sentindo a vista cada vez mais incômoda, com os objetos dançando à minha frente, peguei meus óculos, e depois de limpá-los bem com uma flanelinha, fui preparar meu desjejum. As horas se passavam, e eu me perguntava por aquela moça impenetrável que havia surgido em meu caminho. Mas, com o vagar dos dias, que iam se tornando em semanas, decidi não pensar mais na questão.
Depois de conversar com meu editor, este consentiu em me dar mais alguns dias, mesmo sob à pena de ressarci-lo posteriormente por isso. No fim, ele acabou concordando, que seria melhor ter um bom livro atrasado, do que um tremendo fracasso no dia certo. Mas me advertiu que não demorasse, e que só fazia aquilo, por ser amigo meu de longa data.
Tencionava aspirar de fontes que me estimulassem a criatividade, então, me dirigi ao centro da cidade, para assistir uma peça de teatro que haveria naquela noite. Noite vistosa, devo afirmar, e em tempos mais brilhantes de minha juventude, teria composto belos poemas a majestade da Lua e sua côrte. Porém, hoje não passo de um homem de 25 anos, que mesmo não sendo velho em idade, sente no corpo o cansaço das opressivas responsabilidades.
Àquelas paixões juvenis, que logo se convertiam em tragédias shakespearianas em que apenas Romeu morria, deram lugar a uma triste figura humana, solitária, que mais se parecia com aquele intrépido viajante, que depois de conviver com virtuosos cavalos, não mais suportava os Yahoos de sua espécie.
Fétido cheiro me enche as narinas, urina torpe que pobres almas lançam nas ruas desta cidade de outono perpétuo. Estou eu, passando por aquelas ruas, onde pessoas alimentam seus vícios libidinosos, casas de luxúria.
Subo por aquela estrada, onde lindas garotas, e mesmo outras, que essa vida ingrata, a beleza deteriorou, se ofereciam a homens ambiciosos, que viam seus exteriores, mas eram incapazes de enxergar o interno carente, que a torpeza da profissão corrompera.
Faltava pouco para chegar ao teatro, só restava virar uma esquina, e logo estaria sendo permeado pela arte encarnada. Mais um passo e...
Me deparo com aquela garota.
Um rosto de anjo, tão perfeito. Cabelos escuros como o breu, lisos chegando até os ombros. Corpo pequeno e esguio. Pele pálida, tal qual um fantasma. E aqueles olhos... Aqueles olhos castanhos como o mais escuro topázio...

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